O Cristo Redentor não se resume à estátua, não há quem não se emocione ao ver aquela figura de braços abertos. Ao visitar a estátua, toda experiência compreendida em sua visitação: a subida do trem, a locomotiva histórica, a floresta atlântica, a subida daquela formação rochosa, o vislumbrar da deslumbrante paisagem carioca. Neste texto, apresentarei um pouco da história da idealização e construção do que é hoje um dos maiores símbolos do Brasil.

Em terras previamente chamadas de “Terra de Vera Cruz” ou “Terra de Santa Cruz”, é natural que o principal ponto turístico do Brasil seja uma estátua representando Jesus Cristo Redentor.

Antes de tudo, vamos falar do Morro do Corcovado, local onde está instalado este símbolo brasileiro.

O Morro ou Monte do Corcovado é uma formação rochosa com mais de 700 metros de altura, é um local privilegiado, com ampla vista para o mar e foi previamente chamado no século XV por Américo Vespúcio de Pináculo das tentações em alusão a passagem bíblica, na qual o diabo oferecia riquezas a Cristo no alto de uma rocha. Relatos dos evangelhos sinóticos (Mateus 4:1-11, Marcos 1:12,13 e Lucas 4:1-13).

No século seguinte, recebeu o nome de Corcovado devido a seu formato curvo, que lembra uma “corcunda” ou ”corcova”. Nome este popularizado até os dias atuais.

A ocupação do morro ocorreu principalmente com a chegada da família imperial ao Brasil, em 1808, quando o Brasil colônia teve um salto em seu desenvolvimento .

D. Pedro I conduziu a primeira expedição oficial ao Monte Corcovado em 1824, registrada nas telas de Debret (1768-1848). O monarca desejava estabelecer pontos de observação para defender a costa. Mais do que apenas um ponto de observação militar, o cume do Corcovado logo se tornou um ponto turístico. Construíram ali um belvedere que propiciasse a admiração da vista e instalaram um telégrafo que se comunicava por bandeiras com todas as partes da cidade.

O Monte Corcovado foi se tornando cada vez mais popular, até que D. Pedro II decidiu construir uma estrada de ferro para o cume, a fim de facilitar o acesso. Os engenheiros Francisco Pereira Passos e João Teixeira Soares foram os responsáveis pela estrada de ferro entre o Cosme Velho e o alto do Corcovado. Era a Estrada de Ferro do Corcovado, inaugurada em 1884, a primeira construída no Brasil para o turismo. Sua estrutura foi fundamental para a construção da estátua do Cristo Redentor.

Em 1885 D. Pedro II mandou construir um mirante de ferro e madeira no topo do Corcovado, o mirante foi chamado de Chapéu do Sol. Com a linha férrea funcionando a literalmente todo vapor, a sociedade passou a subir o Corcovado para admirar do alto as belezas cariocas.

O primeiro a ter a ideia relatada de construir um monumento religioso no alto do morro do Corcovado foi o padre lazarista francês Pierre-Marie Boss. Ele deixou registrado o seu sonho em um poema no prólogo da edição de 1903 do livro “Imitação de Cristo”:

‘O Corcovado! Lá se ergue o gigante de pedra alcantilado, altaneiro e triste, como interrogando o horizonte imenso… quando virá? Há tantos séculos espero. Sim, aqui está o pedestal único no mundo; quando vem a estátua colossal, imagem de quem me fez? Ai, Brasil amado! Acorda depressa, levanta naquele cume sublime a imagem de Jesus Salvador! Nem todos, por causas diversas, lerão o Livro, ao passo que em todas as línguas e linguagens a imagem dirá ao grande e ao pequeno, ao sábio e ao analfabeto…’
Pouca gente sabe que uma estátua da Princesa Isabel quase foi erguida no alto do Monte Corcovado, antes da estátua do Cristo Redentor. No dia 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil. Os abolicionistas queriam erguer uma estátua da redentora dos escravos no alto do Corcovado. A Princesa Isabel, gentilmente, declinou, ordenando que fosse construída uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, que para ela era o verdadeiro redentor dos homens.

‘Pois Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que n’Ele crê não pereça, mas tenha vida eterna’ (Jo 3,16). Em um documento de 2 de agosto de 1888 temos a seguinte orientação:

‘Manda Sua Alteza a Princesa Imperial Regente em Nome de Sua Magestade o Imperador agradecer a oferta da Commição Organizadora constituída da Sociedade Brazileira de Beneficência de Paris, da Cia. Estrada de Ferro do Cosme Velho ao Corcovado e do Jornal O Paiz, para erguer huma estátua em sua honra pela extinção da escravidão no Brasil, e faz mudar a dita homenagem e o projecto, pelo officio de 22 de julho do corrente anno, por huma estátua do Sagrado Coração de Nosso Senhor Jezus Christo, verdadeiro redentor dos homens, que se fará erguer no alto do morro do Corcovado’.

Atendendo ao decreto da Princesa Isabel, os viscondes de Mauá e de Santa Vitória viajaram a Paris, encomendando o projeto e a execução de uma estátua de bronze do Sagrado Coração de Jesus, com 15 metros de altura. Com a Proclamação da República, este projeto nunca foi executado. Foi revogada a construção da imagem do Sagrado Coração de Jesus no alto do Corcovado.

O desejo do padre só começou a se tornar realidade nos preparativos para o centenário da Independência, celebrado em 1922. Uma disputa para decidir o projeto para o monumento foi aberta, sendo Heitor da Silva Costa o vencedor. A ideia era que o Cristo Redentor fosse construído apenas com dinheiro proveniente de doações dos brasileiros. Várias campanhas de arrecadação foram realizadas, inclusive um abaixo assinado solicitando a autorização do presidente Epitácio Pessoa para que o monumento fosse erguido. Ao todo a construção custou aproximadamente 2500 contos de réis, o que equivale a 9,5 milhões de reais, vindos de doações de brasileiros de todo o país.

O projeto foi uma obra conjunta do desenhista Heitor da Silva Costa, do pintor Carlos Oswald e do escultor Maximilian Paul Landowski. O Cristo Redentor é uma escultura em estilo Art Déco, com os braços abertos em forma de uma cruz, com 38 metros de altura, o equivalente a um prédio de 13 andares. Desse total, 30 metros são equivalentes ao monumento e os outros oito metros equivalentes ao pedestal. Cada braço ocupa uma área de 88 metros quadrados e o pé mede 1,35 metros. O peso total da estátua é de, aproximadamente, 1145 toneladas, dos quais 30 toneladas são somente a cabeça.
As únicas partes do Cristo Redentor que não foram construídas no Brasil são as mãos e a cabeça, que foram moldadas em Paris. O corpo da estátua é feito inteiramente em pedra sabão, cortada em triângulos, colados à mão em um tecido e aplicado por um pastilheiro na estrutura feita de concreto armado. O monumento é feito para resistir a ventos de até 250 km por hora.
A construção durou nove anos, de 1922 a 1931, e foi inaugurada em 12 de outubro de 1931, durante as festividades do dia de Nossa Senhora Aparecida. Na inauguração, o cardeal dom Sebastião Leme da Silveira Cintra, arcebispo do Rio de Janeiro realizou, de joelhos, a solene consagração do Brasil a Cristo Rei. A estátua foi identificada desde o início como expressão do mistério do Sagrado Coração, Redentor e Rei. A consagração foi composta pela madre Maria José de Jesus, priora do Convento de Santa Teresa, a pedido do cardeal Leme:

“Senhor Jesus, Redentor nosso, verdadeiro Deus
E verdadeiro Homem, que sois para o mundo,
A fonte de luz, de paz, de progresso e de felicidade
Ó Salvador que nos remiste com o sacrifício da vossa vida,
eis a vossos pés, representado o Brasil, a terra de Santa Cruz, que se consagra solenemente ao vosso Coração Sacratíssimo e vos reconhece, para sempre, por seu único Rei e Senhor.
Vós, que esculpiste no céu brasileiro a vossa cruz, de onde jamais será apagada, aceitai e abençoai esta imagem, que será entre nós o símbolo da nossa fé que reina em nosso espírito,
de vosso amor que reina em nossos corações.
Ó Reinai, Senhor Jesus, reinai sobre nossa Pátria!
Queremos que o Brasil viva e prospere sob os vossos olhares,
Queremos que o nosso povo seja sempre iluminado

pela verdade de vosso Evangelho
Reinai, ó Cristo Rei, reinai, ó Cristo Redentor!
Ser brasileiro seja crer em Jesus Cristo, amar a Jesus Cristo!
E essa sagrada imagem seja o símbolo de vosso domínio,
de vosso amparo, de vossa predileção, de vossa benção,
que paire sobre o Brasil e sobre o brasileiro,
como penhor de que, tendo sido vosso na terra,
vossos serão eternamente no céu.
Amém.”

E pensar que foram com estas palavras que inauguraram um dos maiores símbolos do Brasil, talvez não tenha sido mera coincidência. Certamente estamos em um momento que precisamos resgatar nossos valores cristãos para caminhar nestes tempos em que estamos vivendo.

Referências:
http://arqrio.org/noticias/detalhes/7835/o-cristo-redentor-e-a-princesa-isabel
https://santuariocristoredentor.com.br/a-historia-em-um-clique
Devocionário a Cristo Rei
Cristo Redentor, Luis Camilo

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