As redes sociais, como todos já estamos cansados de saber, furou a bolha do discurso hegemônico da esquerda e possibilitou um pequeno movimento na balança de ações dentro da sociedade.

O ponto mais perceptível deste movimento foi na política ocidental, exemplos não nos faltam: Donald Trump nos estados Unidos, Jair Bolsonaro no Brasil, Maurício Macri na Argentina, Marine Le Pen na França, Mateo Salvini e Giorgia Meloni na Itália, entre muitos outros exemplos.

Você, leitor, deve estar indagando neste momento: Alguns destes nomes não fazem parte de um movimento que deu certou ou lograram êxito, seja de administração, seja eleitoral, como no caso de Maurício Macri e de Marine Le Pen respectivamente. Todavia, o foco aqui é chamar a atenção para como estes movimentos podem naufragar ou mesmo serem abortados na saída devido a questão da construção do imaginário cultural de uma sociedade.

Proponho abaixo duas reflexões distintas para analisar estes fatos, sendo que veremos ao fim uma ligação umbilical de como estamos fadados ao ciclo de euforia, decepção e raiva.

 

1 – A indignação pura e o fracasso: Uma parceria quase provável

Naturalmente, sei que os nomes de Maurício Macri e Marine Le Pen podem ter soado estranhos, pois trata-se de um governo “fracassado” na Argentina e uma derrotada nas eleições de 2017 na França; porém, algo muito importante e essencial os ligam àqueles que foram vitoriosos no campo eleitoral ou estão em via de vencer: a indignação da maioria silenciosa.

Sim, ambos são – guardadas as devidas proporções – o resultado deste sentimento de falta de representatividade nos mais diversos aspectos das sociedades ocidentais: moralidade, economia, religião, liberdades individuais, oportunidades sociais, cultural etc.

O pacato, aquele que, conforme aprendi com Dr. Plínio Côrrea de Oliveira, representa a maioria silenciosa, não sabe nominar ou direcionar o porquê de sua indignação, mas sabe que algo muito errado está acontecendo com o seu entorno. Isso o leva automaticamente ao campo político para votar em candidatos que consigam dar voz e forma à sua indignação, gerando assim este grande movimento de guinada na política ocidental, com diversos políticos conservadores (aqui de maneira ampla e rasa do termo, tendo em vista as diferença culturais de cada nação) sendo eleitos ou mesmo incomodando os donos da hegemonia cultural, social e política ao redor deste lado do globo.

Todavia, passados 10 anos da grande eclosão deste movimento, já é possível apontar outras semelhanças históricas perceptíveis: a síndrome do salvador da pátria.

Em países onde as raízes revolucionárias são provenientes do comunismo, em sua principal vertente, o marxismo, a população elege um representante para lutar por este movimento de indignação, entrega-lhe o poder executivo e no geral desmobiliza-se, acreditando que sua parte está feita e agora cabe a este político resolver todos os problemas do país, satisfazer suas vontades e esperanças pessoais. Espera-se isso deste representante de maneira ditatorial, ou faz ou faz, eu te dei poder para tal.

O resultado prático disso geralmente tem sido um governo acuado pela falta de um apoio organizado e militante por determinados grupos dentro da sociedade civil e completamente entregue a uma estrutura de poder construída ao longo de décadas pelo movimento revolucionário.

Particularmente, sou um grande admirador dos ditados populares do Brasil. Meu pai, ensinou-me um dos melhores que já ouvi:

“Quando a barba do seu vizinho estiver pegando fogo, coloque a sua de molho”.

Esse ditado reflete muito bem a nossa realidade em relação à Argentina, onde Maurício Macri passou por este exato processo da síndrome do salvador da pátria. Com o tempo, tornou seu governo fraco e submisso à máquina de moer revolucionária completamente aparelhada não somente dentro do estado, mas como dentro da estrutura social.

Ora, seria impossível para Maurício Macri vencer em rasos 4 anos os mais de 60 anos de peronismo enraizado na cultura hermana. Não cabe aqui, uma análise profunda sobre a orientação política de fato de Macri ou mesmo traçar seus erros e acertos, mas sim evidenciar o macroprocesso ao qual ele foi submetido.

Para surpresa de ninguém, os revolucionários voltaram ao poder na argentina e menos de um ano depois o povo argentino está novamente às ruas contra o governo. E de certa forma, o mesmo processo está se passando no Peru, no Equador, no Chile e obviamente no Brasil.

– A subversão pelo meio judicial

No Brasil, estamos experimentando este processo, onde o judiciário domina todas as principais pautas e governa o país com mão de ferro, passando por cima da constituição, dos demais poderes e ainda diretamente subverte a ordem moral, principalmente do poder legislativo, onde poucos dizem, mas todos sabem, compra-se o silêncio, apoio e cumplicidade através da vasta e longa ficha corrida dos congressistas brasileiros.

Tudo vira assim uma luta irrefreável contra um poder olímpico, onde ninguém pode pará-los: Prendem e soltam quem, como, onde e quando querem. A constituição tornou-se massinha de modelar dentro da necessidade do momento e assim, segundo a vontade dos que tomam de assalto o judiciário, deve continuar.

O Peru, no final de 2019, ficou praticamente à deriva sem suprema corte, legislativo e executivo por conta das tentativas de controle também do judiciário, com um poder aplicando “golpe” ao outro, tornado o país uma nau solta no pacífico.

O Chile foi posto de joelhos por um Piñera que não suportou a falta de apoio organizado, principalmente cultural, e cedeu o poder àqueles que organizaram e tomaram as mentes e os corações; está prestes a lançar uma nova constituição totalmente embebida nos valores revolucionários, que em poucas décadas deve tornar  o belo país do Chile em mais uma republiqueta juristocrata.

Os Estados Unidos da América lutam fervorosamente contra esse processo, ao que parece até aqui, irreversível de subversão judiciária, indicando e compondo sua suprema corte com membros, que à primeira vista, irão respeitar a constituição.

– Derrotismo emocional

Conseguimos observar nessas diversas nações que, o movimento revolucionário se utiliza muito bem do ciclo de euforia, decepção e raiva que é gerado na população. Utilizando a própria força do povo que quer mudanças contra ele mesmo, algo muito semelhando com o que é feito no Aikidô, onde você redireciona a força física gerada pelo ataque do adversário para projetá-lo ao chão, e o adversário, totalmente indefeso por estar focado só no ataque, fatalmente cairá.

Iniciam-se brigas na pequena e mal organizada base de apoio, para saber quem é o traidor, quem é mais apoiador, quem merece ser reconhecido como o grande visionário do momento. Logo atrás destes, vem o pacato, mencionado acima, que não consegue dar uma forma literal a sua indignação e se vê representando nestes a pouco mencionados.

O Pacato, em sua maioria, abandona estes e indubitavelmente servirá como o ataque do adversário no Aikidô para os revolucionários, pois se vê novamente sem uma representação de ideias que traduza o que sente em seu coração, sem uma organização prática no seu dia-a-dia: associação de bairro, vereadores em suas cidades, professores nas escolas de seus filhos, materiais didáticos piramidais que vem do governo central, os diretores espirituais de suas ordens religiosas, entre tantos outros aspectos possíveis. E as redes sociais, antes seu refúgio, agora são uma praça de guerra.

Sente-se irritado e por vezes envergonhado de seus familiares e amigos dos quais é obrigado a ouvir chacotas, no melhor estilo segunda-feira pós-clássico no futebol, onde você é tirado para sarro após a derrota do seu time… e infelizmente a maior parte do brasileiro que está despertando para a política a enxerga a política exatamente por este prisma: um jogo de futebol onde basta torcer para o seu “time” e zombar do adversário para que você “faça a sua parte”.

Esse comportamento torna-se um círculo vicioso, onde os problemas só aumentam e o cidadão torna-se cada vez mais alheio ao mecanismo que movimenta a política. E esse círculo é fomentado principalmente pelo movimento revolucionário em seus mais profundos aspectos: militantes políticos, grêmios estudantis, professores, políticos, jornalistas, especialista e todo o aparelho revolucionário montado para este momento.

Não é difícil entender o que aconteceu para a barba da argentina pegar fogo.

2 – O trabalho de desconstrução do imaginário

A Segunda reflexão que proponho é justamente o que liga o processo de indignação pura ao fracasso, e podemos observá-lo logo após a perda da hegemonia. Compreenda aqui: perda da hegemonia significa que o seu discurso não é mais o dominante no imaginário da sociedade, todavia ele ainda é o que controla os meios de ação e pauta o debate na maioria das vezes.

Podemos notar que nos últimos 5 anos, principalmente após o Brexit e a eleição de Donald Trump, o ocidente passa por um processo de escancaro das ações revolucionárias.  Pisaram no acelerador em diversos processos de engenharia social, dobrando a aposta principalmente na espiral do silêncio e controlando o que deve ser debatido, definindo quem é bom e quem é mau dentro da sociedade.

Pautas mais conhecidas foram amplificadas, como a psicose ambientalista e as pautas identitárias: homossexualismo, racismo, luta de classes etc.

Porém, além dos já famosos meios utilizados, o processo de subversão cultural e destruição do imaginário foi potencializado por um grande financiamento de todas as partes.

Mas… quais partes? Quando digo todas, é literalmente tudo que está no entorno do homem moderno: empresas de redes sociais, música, teatro, empresas de streaming, clubes de futebol, mídia, políticos, ensaístas, padres, pastores, ativistas dos direitos animais… enfim, tudo.

Estamos experimentando um processo brutal onde qualquer que seja o ponto onde você ou seus filhos e sobrinhos olharem, serão bombardeados por ideias revolucionários polidas, com o “melhor” intuito de salvar o mundo com amor e classificando qualquer um que pense fora desta bolha como uma pessoa do mal. A espiral do silêncio, nunca esteve em um processo tão forte de construção como agora nos últimos cem anos.

A mídia revolucionária esportiva está empurrando todos os clubes de futebol do país para o ideal revolucionário identitário. O clube que não for, será massacrado pela mídia. Seus diretores, sem entender o que está acontecendo, aceitam tudo bovinamente, com medo de ter a imagem de seu clube manchada. Mesmo que com isso vá contra a maioria da torcida e exemplos não faltam.

Atlético-GO calou seus profissionais de rede social por festejarem uma vitória histórica contra o Flamengo utilizando o bom humor típico do brasileiro.

O Bahia Futebol clube manchou seu uniforme com petróleo para protestar contra os vazamentos na costa brasileira, colocando a culpa no governo federal, sem ao menos se questionar de onde e por que este óleo estava na costa do Brasil.

O mesmo Bahia colocou nas bandeiras de escanteio de seu estádio as bandeiras LGBT.

A CBF ameaçou punir os clubes que não calassem suas torcidas ao gritar “bicha” na cobrança de tiro de meta.

A talentosíssima jogadora Marta encabeçou um movimento esdrúxulo feminista dentro de campo, financiada pela Avon, para que jogasse de batom e ao final das partidas começou a exigir igualdade de salários em relação aos colegas do futebol masculino. Todavia a mídia esportiva, ao enaltecer todo o processo com gritinhos de euforia, não colocou em debate se o futebol feminino ao menos gera o mesmo número de vendas de pay-per-view ou de bilheteria… isso não importa, o que importa é a revolução contra os machistas e a sociedade patriarcal. Para surpresa de ninguém a CBF cedeu e agora equiparou os salários das duas seleções.

O Futebol americano também passa por este processo, a NBA virou palanque político do partido democrata.

O movimento Black Lives Matter eclodiu filiais através de todo o ocidente, no Brasil como é difícil emplacar a narrativa, mudou de nome e virou um “movimento pela democracia”, capitaneado por marginais, traficantes e baderneiros infiltrados dentro das torcidas organizadas do país, levando torcedores genuínos, dentro e fora das organizadas, a abraçar a pauta falaciosa.

O Netflix nos últimos dois anos aumentou drasticamente seu catálogo de produção com cunho revolucionário, adotando sempre a mesma estratégia: amor, musica de fundo inspiradora, revolucionários travestidos de pessoas indignadas… mas todos com o único intento de desconstruir o seu imaginário de todas as formas possíveis: pautas políticas, pautas voltadas ao lumpemproletariado, pautas abortistas, sexualização precoce, ideologia de gênero, desconstrução familiar, racismo, mudanças de regime político nos estados unidos, luta de classes, racismo de negros contra brancos entre tantas outras. É praticamente impossível acessar uma produção original da plataforma que não abrace uma destas pautas.

– Ok, mas e daí?

Meus caros, essas duas breves reflexões não possuem o objetivo de propor soluções, mas ajudar a limpar o para-brisa e auxiliar no entendimento da complexa tempestade que estamos passando. Que consigamos ao menos enxergar os perigos que estão à nossa frente, nas pistas de nossos vizinhos ao lado.

Mais do que nunca é preciso ter ciência que a tempestade é, sim, longa; levará anos, ou melhor, décadas para passar. Muitos irão desistir por não entenderem o porquê de tanta tempestade e qual o fim desta.

Estamos sendo moldados e direcionados constantemente, muitas vezes sucumbimos ao desânimo, mas devemos estar cientes que a luta é assimétrica, não temos a organização, financiamento e meios de ação dos revolucionários. Todavia temos um bem muito maior que não pode ser contaminado: a verdade.

É urgente ter ciência do nosso papel nos menores e mais diversos aspectos da vida pessoal e social.

É urgente aceitarmos a nossa responsabilidade e não cobrar um representante político com um peso muito maior do que lhe é devido.

É urgente conhecermos as ações revolucionárias para não sermos pautados o tempo todos por elas.

É urgente saber que não conquistaremos resultados grandes no curto prazo.

É urgente ter ciência que a guerra é longa.

É urgente redobrarmos a atenção ao que nossos jovens consomem.

É urgente tornarmo-nos professores, advogados, juízes, diretores de cinema, jornalistas, diretores de marketing, gestores de futebol, arquitetos, psicólogos, analistas políticos, apresentadores, fotógrafos, editores de jornais, representantes de bairros, diretores escolares, reitores, bibliotecários, jogadores de futebol, escritores, atores, poetas, músicos, contadores de histórias, comediantes, radialistas, pastores, padres e enfim…

É urgente ter paciência.

 

– Paulo Henrique Araújo – Palestrante, Apresentador e Diretor Executivo do PHVox 

 

 

*Notas do Editor: 1 – A imagem que ilustra o texto chama-se “Dê-nos Barrabás”. Ela ilustra como o imediatismo e a síndrome de “messianismo” podem facilmente tomar conta dos clamores do homem comum que sofre com o sistema, mas busca se salvar pelo próprio sistema. 2- O Sufixo “maquia”, de origem grega, significa “luta” como  na narrativa clássica da Titanomaquia, isto é, a luta dos Titãs. Neste caso, a luta entre o Pacato e a revolução.