No próximo dia 25 de julho, a famosa encíclica do Papa Paulo VI, intitulada Humanae Vitae, que levou quatro anos para ter uma redação definitiva, e que foi promulgada em 1968, completa 54 anos. Esse documento pontifício, cercado desde o início por muita polêmica, trata da regulação da natalidade, tema delicado, tendo em vista que atinge a intimidade dos casais, e que, ao mesmo tempo, precisa levar em conta que se uma sociedade não mais gerar descendentes estará destinada ao desaparecimento. O Papa João XXIII, em março de 1963, durante o Concílio Vaticano II, já havia criado uma Comissão para tratar do assunto (conforme recorda o Papa Paulo VI no nº 5 da encíclica), a qual incluía “alguns casais de esposos, além de muitos estudiosos de várias matérias pertinentes” (H.V. nº 5). Conforme o próprio Paulo VI fez questão de frisar no texto da encíclica, a transmissão da vida humana é um “gravíssimo dever” (H.V. nº 1), e “os esposos são os colaboradores livres e responsáveis de Deus Criador” (idem).

Pelo menos desde o século XVIII, com o advento do malthusianismo, já havia uma preocupação com a possibilidade de uma espécie de “explosão” demográfica. No século XX surgiram as “políticas de planejamento populacional”. Em 1956, no plano quinquenal de reformas médicas, a União Soviética previu a produção de anticoncepcionais e o ensino de métodos contraceptivos, sob a perspectiva de uma “promoção feminina”, mas as políticas soviéticas sobre a população sofreram profundos altos e baixos de acordo com os interesses planificadores do governo. No que diz respeito à família, a ideologia submetia-se às variações mais bruscas: a partir da instauração do comunismo, a família foi combatida como instituição burguesa, inimiga da revolução e contrária à emancipação feminina. Em outras épocas, sob o capricho das necessidades políticas, foi reabilitada.

Do outro lado do mundo, na década de 1960 o governo dos Estados Unidos, presidido por Lyndon Johnson, iniciou o apoio oficial e institucional às políticas de controle de natalidade. Após o fracasso do programa de ajuda econômica à América Latina – a “Aliança para o Progresso” –, o presidente Johnson, no tristemente célebre discurso das Nações Unidas, disse que “agiria com base no fato de que cinco dólares investidos em controle da natalidade equivalem a 100 dólares investidos em crescimento econômico”. Isso significava que, a partir daquele momento, a Agência Internacional para o Desenvolvimento, que era a agência oficial de ajuda norte-americana, despejaria um volume significativo de recursos em programas antinatalistas. A guerra contra a população havia sido declarada no seio da ONU.

O ano de 1968 é lembrado nos livros de História, com muita frequência, como o ano dos protestos estudantis acontecidos particularmente na França, em Paris, no mês de maio, período de efervescência cultural, cujo principal mote era “é proibido proibir”. As Universidades e Escolas foram inundadas pelo caos advindo de uma insaciável sede de revolução. Só o que importava era a revolução, com vivo realce para a revolução sexual. Agora as pessoas eram prescindíveis, eram usadas e jogadas fora, as relações eram superficiais, alastrava-se a prática do sexo casual, vivia-se numa grave imoralidade imergida em uma espécie de “caldo” marxista que penetrava todas as áreas da vida cotidiana. Durante a primeira revolução sexual, ocorre a modificação semântica, ética e ontológica do eros. O amor torna-se puro prazer instintivo. Com a pílula anticoncepcional, o sexo passa a ser concebido na cultura ocidental como algo praticamente desvinculado da procriação – o que explica, em parte, a subsequente anuência pública e até glamorização das relações íntimas homossexuais. Na segunda fase da revolução sexual, o fim do eros conduziu à banalização da mulher enquanto ser humano. Ao desaparecer o cuidado maternal e a procriação unida ao sexo, a mulher se converte em um objeto sexual, em uma mercadoria para a pornografia.

Justamente em 1968, no mês de abril, um grupo de trinta indivíduos, de dez países – cientistas, educadores, economistas, humanistas, industriais e funcionários públicos nacionais e internacionais – reuniu-se na Accademia dei Lincei, em Roma. Eles se reuniram por instigação do Dr. Aurelio Peccei, um gerente industrial e economista italiano, para discutir um assunto de alcance surpreendente: a situação presente e futura da Humanidade. Dessa reunião surgiu o Clube de Roma, uma organização informal – entre tantas que existem, algumas inclusive bem mais antigas – que foi apropriadamente descrita como uma “sociedade invisível”, e que foi precursora em fomentar ações e discussões sobre os temas ecológicos e de meio-ambiente. Já não é mais segredo que o Clube de Roma, junto com outras organizações e grupos de banqueiros, faz parte dos movimentos globalistas – face conhecida daquilo que se convencionou chamar “Nova Ordem Mundial” –, financiados pelos grandes banqueiros internacionais, suas corporações e fundações bilionárias. Esse mesmo Clube de Roma financiou, em 1972, a confecção de um relatório chamado “The Limits of Growth” (“Os Limites do Crescimento”), que passou a seguinte mensagem, considerada urgente e sensível: Os recursos interligados da Terra – o sistema global da natureza em que todos vivemos – provavelmente não podem suportar as taxas atuais de crescimento econômico e populacional para muito além do ano de 2.100 [note-se o neomalthusianismo], se tanto, mesmo com tecnologia avançada. O homem pode criar uma sociedade em que possa viver indefinidamente na Terra se impuser “limites a si mesmo” [leia-se: “controle da natalidade”] e à sua produção de bens materiais, para alcançar um estado de equilíbrio global entre a população e produção, em um equilíbrio cuidadosamente selecionado.

Dentro de todo esse contexto problemático, gerado tanto pela revolução sexual, quanto pelo equívoco neomatlhusiano dos globalistas, a encíclica Humanae Vitae permaneceu sendo, ao longo dos anos, um farol a iluminar com segurança o caminho dos esposos católicos, para que pudessem permanecer abertos à vida e ao genuíno amor conjugal, que não pode renunciar a ser total, fiel e exclusivo até a morte, além de fecundo, destinado a continuar-se, suscitando novas vidas (Cf. H.V. nº 9). No intuito de colaborar com a promoção desses valores e virtudes, próprios da vida cristã, e consciente de que, unido à Igreja, e por mandato de Cristo, tinha a missão de iluminar as consciências dos homens a respeito das exigências morais que brotam de sua natureza, o Papa João Paulo II criou, em 11 de fevereiro de 1994, através do Motu Proprio Vitae Mysterium, a Pontifícia Academia para a Vida, academia científica que tem por objetivo estudar, informar e formar sobre os principais problemas de biomedicina e de direito, relativos à promoção e à defesa da vida, sobretudo na relação direta que estes têm com a moral cristã e as diretrizes do Magistério da Igreja. No ano de 2016, a referida Academia passou por profundas transformações, troca do seu presidente, mudanças no estatuto, ameaças de expulsão a membros que tinham se manifestado contra o aborto, previsão de reconfirmação de membros que apoiavam a fertilização in vitro, diagnóstico e seleção genética de embriões, pílulas abortivas e coisas semelhantes.

Passado esse “terremoto”, a atual Pontifícia Academia para a Vida está agora promovendo uma “mudança de paradigma” na teologia moral, que incluiria afastar-se do ensinamento estabelecido sobre contracepção, eutanásia e formas de concepção artificial. Os que apoiam essa mudança radical estão pedindo ao Papa Francisco que ratifique tal mudança com uma encíclica, na qual seria estabelecida uma ruptura de mais de cinco décadas de ensinamento magisterial pós-conciliar. Essa proposta encontra-se em um documento publicado neste ano de 2022 pela Libreria Editrice Vaticana (Livraria e Editora do Vaticano) para a Pontifícia Academia para a Vida (“PAL”, na sigla em inglês), chamado Theological Ethics of Life: Scripture, Tradition, and Practical Challenges

em Português: “Ética Teológica da Vida: Escritura, Tradição, e Desafios Práticos”. Trata-se de uma síntese com 528 páginas de um Seminário teológico promovido pela própria Academia, em 2021, como “uma contribuição que elabora uma visão cristã da vida, expondo-a a partir da perspectiva de uma antropologia adequada à mediação cultural da fé no mundo de hoje”. A “Introdução” do documento foi escrita pelo Mons. Vincenzo Paglia, presidente da Academia para a Vida desde 2016. Em seu texto, Mons. Paglia descreve a “mudança de paradigma” na teologia moral, que introduz como “tanto descritivo quanto conceitual, já que segue um padrão tanto argumentativo como narrativo, teórico e sapiencial, fenomenológico e interpretativo” – ou seja, não fica mais pedra sobre pedra, então? Para muitos teólogos, dificilmente o conteúdo do recente documento da PAL poderia considerar-se um desenvolvimento genuíno da Evangelium Vitae – encíclica com a qual São João Paulo II reafirmou a oposição da Igreja Católica em relação à contracepção, e que sublinhou sua conexão com o aborto –, ou mesmo de todo o corpo do ensino magisterial pontifício posterior à Humanae Vitae.

Estamos assistindo a uma clara tentativa de desconstrução da encíclica Humanae Vitae e de todo o magistério pontifício posterior a ela. As razões não podem ser mais evidentes: em nome da preservação dos interesses mesquinhos e diabólicos de alguns grupos econômicos e de poder, é preciso aniquilar no Ocidente o que ainda há de resistência aos desvalores da sociedade moderna provocados pela revolução sexual, e a toda a propaganda pseudoecológica globalista. E o combustível para pôr em andamento essa aniquilação está vertendo, desgraçadamente, como de uma fonte, dos agentes dessa revolução que se infiltraram na hierarquia da Igreja Católica. Que Deus nos proteja!

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