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Anchieta, um gigante
Anchieta, um gigante

Quando pensamos o nome José de Anchieta, o mais comum é associá-lo a uma vaga lembrança dos tempos de escola, geralmente ligada à disciplina de Literatura do 1º ano do ensino médio. Reminiscências como “literatura jesuítica”, “literatura catequética”. Para quem está ou mais recentemente esteve nessa etapa escolar, pode também se lembrar de termos como “dominação colonial” ou “imposição cultural”.

Uma pena, pois Anchieta foi sem dúvida um dos gigantes da nossa história em um primeiro e decisivo memento da formação do território nacional e, em muitos aspectos, foi pioneiro: “primeiro poeta, primeiro teatrólogo, primeiro gramático, primeiro humanista, primeiro mestre espiritual do Brasil”, conforme bem já assinalou o professor Eduardo de Almeida Navarro[1].

É interessante, portanto, listar e assinalar as obras que fizeram de Anchieta um gigante pioneiro.

Apóstolo e santo

Nascido em Tenerife, nas Ilhas Canárias, em 1534, e autoassumido como basco, Anchieta estudou nos Colégio das Artes, em Coimbra, onde levou uma vida de rigoroso estudo e persistência na fé, afastando-se da licenciosidade vigente entre muitos membros daquele instituição. Entrou com pedido para ingresso na Companhia de Jesus em 1551, fazendo seus primeiros votos como jesuíta em 1553, mesmo ano em que embarcou para o Brasil na esquadra de Duarte da Costa, nosso segundo governador-geral.

Chegou ao Brasil em 1554 e, desde então, jamais interrompeu seu apostolado de fé. Segundo os relatos históricos, foi apelidado pelos índios de São Vicente como Abaré bebé, que quer dizer Padre Voador, tal era a velocidade com que se deslocava de um lugar a outro para fazer suas pregações. Em seus anos de apostolado, trabalhou incansavelmente para a difusão da fé cristã e a conversão dos povos indígenas no Brasil, tendo trabalhado nas capitanias de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia. Teve atuação decisiva, inclusive, no desfecho dos conflitos entre portugueses e índios tamoios, instigados pelos invasores franceses, na Confederação dos Tamoios.

Sempre guiado por sua inabalável fé desde o primeiro dia em que pisou no Brasil, nem mesmo uma dolorosa enfermidade nos ossos, que o tronou corcunda ainda na juventude, foi capaz de lhe abalar o ânimo nas mais de quatro décadas de trabalhos dedicados exclusivamente a Deus por aqui.  Por isso, merecidamente Anchieta é reconhecido com o título de Apóstolo do Brasil.  Além disso, foi também o primeiro santo a pisar em terras brasileiras, pois foi canonizado pelo papa Francisco em 3 de abril de 2014.

Professor/pedagogo

A antiga Companhia de Jesus foi uma ordem voltada para a educação. Até sua extinção no século XVIII, onde quer que houvesse jesuítas, havia a fundação de escolas dedicadas à melhor formação humana possível. Assim aconteceu no Brasil, e assim foi boa parte do apostolado de Anchieta.

O jovem padre recém-chegado ao Brasil já participou da fundação da segunda escola jesuítica no país, na então São Paulo do Piratininga, em 1554. Com 19 anos de idade, era o primeiro professor daquela que viria a ser a cidade mais importante do país, ensinando latim para os irmãos jesuítas que viviam ali. Passava noites em claro copiando as lições para seus alunos, que não dispunham de livros ou manuais.

Além disso, seu rápido domínio da língua brasílica o habilitou a atuar com grande facilidade e eficiência em seu trabalho catequético (também pedagógico, portanto) entre os povos indígenas com que teve contato.

Gramático

O jovem Anchieta, como já mencionado, dominou em pouco meses a chamada língua brasílica, ou língua geral do Brasil, que era falada em toda a costa brasileira, com variantes dialetais do Tupi, Tupinambá e Tupinambá do Norte, entre outras.  Com isso, conseguiu realizar um trabalho mais eficaz de catequese. Chegou, inclusive, a auxiliar o padre Manuel da Nóbrega, que nunca conseguiu aprender muito bem a língua geral, na confissão dos índios convertidos.

Assim, com seu conhecimento privilegiado e os estudos que realizou durante toda a vida sobre a língua tupi, Anchieta publicou, em 1595, seu livro Arte da Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil, a primeira gramática escrita no país. Também escreveu o Diálogo da Fé, uma espécie de catecismo destinado ao uso dos missionários para a introdução dos indígenas na fé cristã, com a versão em Tupi da diversas orações e trechos extraídos da Bíblia.

Dramaturgo

Boa parte do trabalho de catequese de Anchieta foi realizado por meio de peças teatrais por ele criadas, e pelas quais o santo jesuíta também se consagrou como pioneiro de nosso teatro. Compostas em tupi para serem encenadas pelos indígenas convertidos, eram tramas simples, com o foco na luta do bem contra o mal, com a presença de santos mártires (como São Lourenço, São Sebastião e São Maurício), demônios (muitas vezes encarnados como os chefes indígenas antropófagos não convertidos ou almas de antigos imperadores romanos responsáveis pelos genocídios contra os primeiros cristãos), anjos, almas desorientadas e personagens alegóricos. A principal preocupação de tais trabalhos era o combate aos costumes bárbaros que faziam parte da cultura local, sobretudo os rituais pagãos que envolviam a prática do canibalismo.

Os autos anchietanos foram decisivos no trabalho pedagógico de conversão, catequização e orientação espiritual dos indígenas. E, não obstante o caráter de literatura secundária que vieram a adquirir nos manuais escolares, são peças de grande valor literário, nas quais podem ser percebidos as claras influências do teatro medieval vicentino e o valor da formação humanista de Anchieta, o “Canarinho de Coimbra”.

Poeta

O primeiro poeta na Terra de Vera Cruz. Sim, Anchieta também foi pioneiro na história da literatura no Brasil como poeta. Produziu uma vasta obra lírica em português, castelhano, latim e tupi. Sua lírica tupi, inclusive, é toda ela cuidadosamente trabalhada em métrica e esquema de rimas medievais e renascentistas.

Em toda sua obra lírica, evidencia-se a sua devoção à fé católica e, sobretudo, a Nossa Senhora (aliás, Anchieta também é considerado o introdutor da devoção mariana no Brasil). Desta safra, sua obra mais impressionante sem dúvida é o seu De Beata Virgine Dei Matre Maria (que veio a ficar conhecido como O Poema da Virgem), um poema de 5786 versos em honra à Mãe de Deus, composto sem papel ou tinta, com gravetos nas areias da praia, quando Anchieta foi refém dos indígenas em Iperoig (hoje Praia do Cruzeiro), por sete meses durante os quais eram realizadas as negociações de paz da Confederação dos Tamoios[2]. Escrito em latim[3] à imitação de Ovídio, o poema foi decorado pelo missionário e só colocado no papel em 1864, após sua libertação do cativeiro. Envolve toda a existência de Nossa Senhora, desde a sua Imaculada Conceição até sua Assunção e coroação no Céu, passando por sua vida terrena, suas alegrias e suas dores, incluindo toda a ação dos evangelhos em sua composição. Uma obra que não deveria ser esquecida, e que merece aqui o registro de um trecho de sua dedicatória, que transborda fé e beleza:

Eis os versos que outrora, ó Mãe Santíssima

te prometi em voto,

vendo-me cercado de feros inimigos.

Enquanto a minha presença

amansava os Tamoios conjurados

e os levava com jeito à suspirada paz,

tua graça me acolheu

em teu materno colo

e teu poder me protegeu intactos corpo e alma.

A inspirações do céu

eu muitas vezes desejei penar,

cruelmente expirar em duros ferros.

Mas sofreram merecida repulsa os meus desejos:

só a heróis compete tanta glória!

Ainda como poeta, Anchieta foi também o pioneiro no gênero épico no Brasil e nas Américas, com a epopeia De Gestis Mendi de Saa (Dos feitos de Mem de Sá), cujo foco das ações é a luta dos portugueses, sob o comando de Mem de Sá (terceiro governador-geral do Brasil), contra os indígenas hostis e os invasores franceses da França Antártica, na capitania do Rio de Janeiro.

O poema também narra batalhas ocorridas contra os indígenas na Bahia e no Espírito Santo, com episódios memoráveis como as mortes de Fernão de Sá (filho de Mem de Sá e governador da capitania do Espírito Santo) na Guerra dos Aimorés, e de Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil, devorado pelos índios caetés após sobreviver a um naufrágio no rio Coruipe, assim como descrições bastante realistas e chocantes dos rituais de canibalismo praticados pelas tribos adeptas desse hábito.

É com um trecho desse poema, então, que bem cabe encerrar este artigo sobre São José de Anchieta. Nele, nosso canarinho de Coimbra, nosso Padre Voador, nosso apóstolo e santo, nosso gigante, enfim, expõe o principal motivo da expansão marítima portuguesa, o mesmo motivo de toda sua vida de perigos, abnegação e sacrifícios, o amor a Nosso Senhor:

Não foram as pedrarias do Oriente e as grandezas do Ganges,
nem as especiarias perfumosas que a Índia derrama
do seio fecundo, terra donde o sol lança à corrida
seus chamejantes cavalos: foi, sim, o zelo abrasado
de levar teu nome, ó Cristo, a todas as gentes,
em qualquer clima da terra, o que moveu o régio peito
a afrontar sendas desconhecidas, trabalhos na terra,
ameaças no mar, e a rasgar com esquadras inteiras
oceanos enfurecidos e dantes jamais navegados.

[1] Poemas: lírica portuguesa e tupi. Martins Fontes, 1997.

[2] A resiliência de Anchieta em meio às privações e a todo o tipo de fustigação psicológica promovida pelos tamoios (incluindo ameaças diárias de morte) em seu período de cativeiro, mostrando-se um exemplo de fortaleza, ocasionou-lhe a oportunidade de converter um sem número de tamoios, impressionados com sua fé e suas pregações sobre um Deus de amor e misericórdia.

[3] Posteriormente, foi traduzido para o português pelo padre Armando Cardoso (1906 – 2002), um importante biografo de Anchieta.

 

Leônidas Pellegrini é professor de Língua Portuguesa e Literatura na rede federal de ensino, revisor do Diário Terça Livre e colunista do portal Terça Livre e da Revista Terça Livre.