A Coronavac é eficaz e segura?

Por Luiz Daniel Cetl

Nos últimos há uma enorme polêmica em relação a eficácia da Coronavac. 90%? 77%? 50%? É segura? Todos concentram-se nos números parciais apresentados, inferindo se são suficientes para podermos decretar nossa salvação.

Não vi aqueles que dominam tecnicamente o tema esclarecerem os dados, seja por não querem entrar em um assunto polêmico com tantos holofotes e censores dispostos a cancelamentos sumários acaso as opiniões permitidas não sejam reafirmadas, seja por simplesmente não haver espaço nos meios de informação ditos tradicionais. Não sei e não pretendo investigar.

Pretendo, no entanto, lançar alguma luz nessa discussão, deixando claro que aqui coloco apenas uma análise técnica do desenho do estudo, e muito embora eu tenha sim uma opinião sobre todo o cenário político e social em que o estudo está inserido, evitarei expô-la para não influenciar a análise dos dados. O presente artigo busca facilitar o entendimento da questão para que mais pessoas possam tomar suas próprias decisões.

Embora não haja dúvidas quanto a importância dos números obtidos para auxiliar a explicação, é preciso saber o que esses números significam: é necessário avaliarmos o desenho do estudo para entendermos o real significado dos números e ajudar a respondermos a fatídica pergunta. Porém, precisamos entender alguns termos antes, para assim mergulhar na solução desse aparente mistério.

Quando realizado um estudo clínico, o que queremos é responder perguntas que fazemos a respeito de algo, e para isso estabelecemos hipóteses que o estudo vai confirmar ou refutar. Um estudo como o desenhado para a análise da Coronavac, é necessário previamente ser estabelecido o(s) objetivo(s).

Neste caso específico, foram estabelecidos 2 objetivos primários: um para eficácia e outro para segurança. Foram ainda estabelecidos mais 10 objetivos secundários para se inferir eficácia, segurança e imunogenicidade, além de 8 objetivos exploratórios.

Mas o que realmente significa tudo isso?

 

Como o próprio nome já nos indica, os objetivos primários, são aqueles em que o estudo é calcado, ou seja, ele é construído para responder essas perguntas e o número de participantes arrolados é calculado para que seja adequado a essa tarefa.

Já no caso dos objetivos secundários, na prática o que é feito, é aproveitarmos os dados coletados para avaliarmos outras situações associadas ao uso da vacina e obtermos mais algumas inferências que poderemos num outro estudo eventual explorar melhor.

Finalmente, os objetivos exploratórios são avaliados para encontrarmos dados com correlação com os desfechos, porém sem necessariamente serem causas ou serem causados pela vacinação.

Dito isso, passemos para mais uma consideração muito importante, pois tenho visto em muitas discussões sobre a eficácia da vacina: a questão de o participante estar ou não imunizado como o desfecho necessário para essa conclusão (sem dúvida um raciocínio lógico e possível). Todavia a definição de eficácia como objetivo primário para a Coronavac é: a incidência geral de casos sintomáticos de COVID-19 confirmados virologicamente após 2 semanas da segunda vacinação. Portanto, o que vemos é que a presença de anticorpos contra o vírus não é necessária para se atingir o conceito de eficácia da vacina nesse estudo. Além disso, com a definição usada, podemos ter pacientes assintomáticos, vacinados e não imunizados.

Precisamos entender também que a fórmula escolhida para se determinar a eficácia foi o hazard ratio (razão de risco), que nada mais é que a relação entre a chance do evento ocorrer no braço do tratamento, comparado com a chance de o evento ocorrer no braço controle. Novamente caímos na questão de não estarmos avaliando a imunização dos participantes e sim “apenas” a presença de sintomas entre quem foi vacinado e quem tomou placebo.

No quesito segurança, o desfecho primário considerado é: “a presença de reações adversas locais e sistêmicas solicitadas e não solicitadas durante 1 semana após a vacinação de acordo com a faixa etária (18-59, >=60)”. Contemplando assim as reações precoces. Quanto aos dados disponíveis, infelizmente temos apenas gráficos qualitativos, sem valores passíveis de serem analisados. Embora a conclusão da apresentação seja que a Coronavac é segura (virtualmente, há sim essa probabilidade), os dados públicos disponíveis até o momento, não permitem tal afirmação.

Voltando a questão da eficácia desta vacina no presente estudo, pelo desenho feito, são necessários pelo menos 13.060 participantes, porém na própria apresentação e dito que até àquela data tinha-se 12.508 e os dados apresentados são referentes a 9.252 participantes. Portanto, embora nada impeça que sejam feitas análises antes do término do estudo, conclusões apenas poderão ser feitas com todos os dados.

O quesito segurança não seria afetado pelo número atual de participantes, pois no desenho do estudo foi calculado a necessidade de 7.194 participantes para poder se avaliar esse desfecho – valor atingido com folga – porém sem os valores obtidos disponibilizados publicamente, não é possível fazer afirmações.

Outra questão que merece atenção é que entre desfechos primários secundários e exploratórios temos 20 variáveis a serem analisadas, e como em ciências da vida usa-se um intervalo de confiança de 95% (5% de chances de os resultados não serem os que foram achados nos cálculos, ou seja, estarem errados), temos a possibilidade de um dos resultados estar errado, mesmo usando adequadamente os testes matemáticos para calculá-lo.

Resumindo, a vacina é segura? Talvez; os gráficos são promissores, porém sem os dados, não é possível uma confirmação. É eficaz? Sem atingir o número de participantes necessários (13060) e ter seus dados analisados, não é possível fazer essa afirmação. Lembrando que no presente estudo o que é chamado de eficácia é a capacidade da vacina em evitar casos sintomáticos.

Convém ressaltar ainda que alguns desfechos necessitam de acompanhamentos de 52 semanas, conforme relatado no próprio desenho do estudo. E não menos importante é o fato muito ressaltado da necessidade de haver pelo menos 50% de eficácia para uma vacina poder ser utilizada. Isso não é completamente verdade. Existe realmente uma recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do FDA (Food and Drug Administration) em se utilizar esse valor, mas, como tudo na vida, isso depende da situação: se tivermos menos de 50% e não tivermos alternativas, realmente devemos descartar o produto? Se tivermos 75%, porém alternativas melhores, devemos ignorá-la apenas por atingir um valor maior que o sugerido?

Além disso, em caso de não promover uma imunização dos participantes, o fato de reduzir os pacientes sintomáticos e/ou hospitalizados é algo desprezível? Novamente depende da situação em que nos encontramos.

Há alternativas? Se houver outros produtos que promovam imunização e uma eficácia maior no controle de casos sintomáticos, parece ser melhor apostar nesses. Não havendo, teríamos problemas por usar um produto que “apenas” evites casos graves? Oras, a vacina da BCG está aí para mostrar algo nesse sentido, pois se não evita que peguemos tuberculose, reduz muito a chance de formas mais graves da doença.

Como vemos, a discussão estritamente científica dos dados já não é uma coisa simples para quem lida com isso no dia a dia, todavia, quando acrescentamos na equação, interesses que não são relacionados ao bem-estar da população, podemos ter um verdadeiro caos.

Não desejo de forma alguma dizer que o destino de todos deve ser decidido por uma “elite de conhecedores” e que todos os sigam cegamente, muito pelo contrário. Porém, as pessoas realmente capazes, não só podem, como devem esclarecer o assunto sem qualquer paixão política, para que aí sim a população poder tomar sua decisão de forma mais consciente e livre possível.

 

Luiz Daniel Cetl

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