Não é fácil viver no mar de emoções da política do Brasil. Há menos de 10 anos o debate político era algo engessado, reduzido a uma classe média que se resumia a repetir os clichés da Velha Mídia enquanto os partidos brincavam de encenar uma polarização de mentirinha onde o PSDB posava de good cop e seu irmão PT interpretava o bad cop.

Esse teatro começou a ruir nas cenas finais do governo Dilma, quando as análises perfeitas do Professor Olavo de Carvalho sobre a política nacional se popularizaram. Desde então, ler, comentar e respirar política passou a ser o esporte nacional, embora isso não fosse, nem de longe, o objetivo do Homem da Virgínia.

Não há dúvida que é algo positivo o brasileiro passar a colocar no seu repertório de assuntos algo que antes era totalmente ignorado, porém, como toda paixão nova, a coisa tomou uma proporção visceral e muitos passaram a ver a política como o delimitador e explicador de toda a estrutura da realidade. Tudo: entretenimento, cultura, jornal, todas as esferas da vida do indivíduo agora então deveriam ser espelhos das suas convicções políticas.

O Conservador, essa nova classe de gente no repertório sociopolítico brasileiro, que nos ambientes britânicos e americanos é definida como um grupo de indivíduos que se notam por serem muito céticos em relação à política e até aos próprios políticos que se autodefinem como conservadores, passou a ser um título ostentado por todo reacionário tupiniquim. E em plena negação às verdadeiras raízes conservadoras católico-ibéricas do Brasil, muitos dos que clamam o crachá de conservador deram à religião tradicional um papel coadjuvante no seu panorama de ideias basilares. Foi aí que o caldo começou a entornar.

Penso que mais da metade dos que me acompanham no PHVox e no Jornal Brasil Sem Medo são parte destes brasileiros que passaram a se encantar com a política nos últimos 10 anos e, como citado no início do texto, passaram a ver a política como o delimitador e explicador de toda a estrutura da realidade. Logo, não é de se admirar que diante de todos os desastres, injustiças e problemas que chicoteiam o novo governo diariamente, muitas dessas pessoas começaram a ver o seu mundo ruir.

Para os mais aflitos, pode soar como comodismo ou esnobismo de minha parte eu não me manifestar sobre a política nacional com o mesmo ímpeto de muitos amigos; enquanto o cenário político está virando um circo, eu passo a usar meu espaço na mídia e redes sociais para falar sobre Quaresma, música clássica e sacra, cinema, literatura, gravar podcast de humor e publicar fotos de paisagens, castelos e igrejas daqui da Europa.

De setembro a novembro de 2020 eu tive uma overdose de política trabalhando na cobertura das Eleições Americanas. Essa overdose me ajudou a notar a maneira apaixonada com a qual o povo se relaciona com a política. A coisa é, de fato, uma devoção. Não há interesse pela política – aquela da qual Aristóteles ou Olavo falam – na verdade, há um interesse, um culto por pessoas. Depois de meses de brigas com os parentes e “debates” quixotescos na internet, o critério do eleitor mediano é um coeficiente entre o quão ele se identifica com a personalidade do político e como ele crê que aquele político vai lhe trazer algum benefício pessoal. Essa equação se torna quase unânime quando falamos de eleições para o Legislativo

Não é da natureza dessa torcida eleitoral discutir as causas profundas do porque aqueles problemas existem e se há outra maneira de resolvê-los que não passe por colocar terceiros no poder. Esse sebastianismo, esse messianismo, é intrínseco da sociedade e eu não tenho qualquer pretensão em mudá-lo. Tampouco há como mudar aqueles que gostam de ser comandados por uma ditadura que lhes dê a sensação de segurança, afinal é também intrínseco da humanidade que haja gente comum, do povo, que apoie e goste de ditaduras convenientes com suas vontades.

Como balanço parcial dos anos de estudo com bons mestres e do trabalho como correspondente internacional – além da observação modestamente atenta a realidade das coisas – percebo que a maior parte dos nossos problemas mais agoniantes, aqueles que pulsam todo dia em nossos travesseiros quando todos já foram dormir e nós já perdemos o sono, não tem nada a ver com o STF, com o Presidente do Brasil ou dos Estados Unidos.

Problemas financeiros, todo mundo tem: nos melhores governos conservadores da história ainda existia gente com conta atrasada, imposto do carro vencido e fim de mês à moedas contadas. Obviamente que um governo melhor torna o fardo da economia mais leve para o pai de família, mas, responda com sinceridade: como você vai interferir nos rumos disso surtando no frenesi da hashtag do momento dia sim e outro também?

Se você é pobre ao ponto de estar preocupado com a refeição de amanhã, eu sinto em te dizer, mas se preocupar com a política do dia não vai resolver mesmo seu problema e provavelmente é a última coisa que você deveria pensar agora.

Se teu problema é de ordem mais moral ou ideológica, como um filho que virou sodomita ou a filha que pintou o sovaco de azul depois que começaram a andar com umas amizades estranhas, o se você, jovem, tem de aturar uma faculdade repleta de professores maconheiros e para melhorar, no seu único momento de descanso o teu vizinho pirangueiro só ouve funk no volume máximo, reflita com honestidade e pense: como o Bolsonaro, o Trump ou o Ministro Fulano resolverão isso de modo pleno e perene?

Eu não estou dizendo pra você ignorar totalmente o cenário político. Não é sequer virtualmente possível. Você precisa ficar atento ao votar – principalmente para o Legislativo – e precisa, ocasionalmente cobrar alguma satisfação do seu Senador e Deputado. Porém, você não vai encontrar paz para sua agonia assistindo insistentemente toda a cobertura política do dia no YouTube e na TV e exigindo que os demais jornalistas, comentaristas e youtubers façam o mesmo, transformando sua experiência com a mídia numa infernal câmara de eco monotemática que consome toda sua paixão e vigor. Na prática, é como assistir pornografia: você fica se excitando como se estivesse ali, fazendo parte da sacanagem, porém sem qualquer chance de colocar seus sete centímetros de alegria no meio do jogo.

E é por isso que este gordo pecador meio desbocado insiste para você que realmente quer encontrar algum alívio para o permanente estado de putaquepariu que a vida esfrega na nossa cara todo dia: saia dessa masturbação mental e se importe com a busca do Belo e do Verdadeiro.

O Belo e o Verdadeiro só emanam de Deus, do Cristo, do elemento transcendente que age na história e move a história. Fuja da visão materialista/imanentista da História, mas também fuja da visão de que Deus é seu mordomo e vai ficar atendendo todos os seus pedidos.

Admita que ninguém tem a resposta para uma porção de coisas; às vezes, nem a ciência, nem a Igreja, nem ninguém. Aceite que tais coisas bizarras são bizarras porque Deus as fez assim, e Deus não é mais burro que você, logo, há de ter um motivo para sua feiura ou para o clima horrível de Rondônia. Reze pedindo para Deus te dar a salvação da tua alma. A pobreza, a doença ou viver num país de merda podem ser meios necessários para essa salvação; você não sabe.

Em vez de ficar o dia inteiro como um mala-sem-alça querendo saber do Trump, do Bolsonaro e do STF, vá se arrumar para o teu marido, lavar uma louça para tua mulher, visitar tua avó, ver se há um vizinho com problemas para pôr o pão na mesa amanhã cedo. Estude, seja menos jeca, aprenda que diabos é essa tal de fuga de Bach, visite museus e assista uma mísera opera pelo YouTube, de graça. Se não entende bulhufas de ópera, é só ir até o Google e escrever “libreto da ópera tal tradução”  e todas “falas” dos personagens estarão ali para você (Recomendo começar pelas óperas mais cômicas e leves, como O Barbeiro de Sevilha).

Que tal assistir às entrevistas das segundas-feiras no PHVox e no dia seguinte tentar conversar sobre o tema que viu lá com alguém e, só por uns dias, deixar de ser o chato que só fala de política?

O Belo e o Verdadeiro emanam de Deus, do Cristo, da Virgem Maria, e invariavelmente, cedo ou tarde, farão você perceber essa Presença. Aos poucos você notará que é a Divina Providência que permite haver a Beleza e a Verdade manifestadas nesse mundo; a mesma Providência que te guardará de toda a desgraceira que acontece ao seu redor e te fará sobreviver e se manter lúcido enquanto todos ao seu redor se descabelam e clamam por novos messias políticos.

É só isso que dá algum alívio para este mundo-cão: experimentar a Presença de Deus em sons, pinceladas, pedras, versos, orações, no amor desinteressado pelo próximo e na gratidão por sua vida, por pior que ela seja.

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