O Dia em que Karl Marx Saiu para Arrumar Emprego

Nessa série de contos, que poderia classificar como virtual history (como seria o mundo se tal coisa acontecesse de tal forma, e não de outra), procuro trazer a vocês a minha visão de um Universo Paralelo onde Karl Marx, premido pelas necessidades de sua família, se vê na obrigação de arrumar um emprego.

Primeiro Ato – O derradeiro diálogo entre amigos

Karl Marx

– Friedrich, meu caro, que bom encontrar-lhe de novo. Percebo que está corado, vejo que as viagens de negócios lhe fazem bem….Eh…Deixa eu falar…Minhas ideias para meu, quer dizer, nosso livro, que trata da misérias do capitalismo estão fervilhando em minha mente; sério, um material de extrema qualidade virá por aí…Faremos história.

Friedrich Engels (virando os olhos)

– Mas???

Karl Marx

– Então, Friedrich, já falei que você está cada vez mais bonito, com um aspecto austero, transpira inteligência e sabedoria, deveria pensar na política prussiana…

Engels

– Direto ao ponto, Karl, tenho muitos, mas muitos compromissos…

Marx

– Então, meu, quer dizer, nosso livro, está ficando ótimo…

Engels

– Ótimo ponto, Karl, a propósito, quantas páginas já temos escritas?

Marx

– Ehh, quer dizer,…, páginas não temos nenhuma ainda…mas tenho ideias para mais de cinco volumes.

Engels (agora com tom grave, quase colérico)

– Sheisse[1], Karl…E o dinheiro que lhe adiantei para ficar esse último ano escrevendo a obra que idealizamos juntos…Não foi pouco dinheiro. Sheisse, sheisse, sheisse…Bem que meu pai falou de tipos como você…

Marx

– Friedrich, não quero brigar por questões menores como prazos e laudas, quando estou, quer dizer, estamos perto de escrever o livro mais importante de todos os tempos. Estamos escrevendo a nova Bíblia, meu amigo. Percebe a importância disso?

Engels

– Percebo que fui enganado…isso sim. Estou com dor de cabeça, por favor, desembucha logo, o que você quer.

Marx

– Então, meu caro Friedrich. Estou com problemas familiares. O dinheiro infelizmente acabou. Preciso terminar meu, quer dizer, nosso livro…

Engels

– Não era mais fácil enviar um telegrama? A resposta é não! Não dá, Karl, gosto de você pessoalmente, mesmo sem saber se a recíproca é verdadeira, mas o fato é que não dá, a fonte secou.

Marx

– Friedrich, não tenho o que comer em casa…Um filho meu está doente.

Engels

– Isso já está resolvido. Já mandei víveres à sua casa, um médico está vendo seu filho nesse momento e já paguei seus alugueis em atraso. Tudo isso em nome da nossa amizade. Mas, esqueça do livro, você não verá mais um centavo do meu dinheiro.

Marx

– Deixe-me explicar…

Engels

– Karl, meu querido, sei que em algum momento o livro ficará pronto e, em algum momento, ele impactará o mundo. Também sei que gênios criativos têm certa dificuldade em cumprir prazos. Você é um deles, não tenha dúvidas. Em momento algum me passa pela cabeça que você me enganou. Não está vendo policial algum ao meu lado, correto?

Marx (levanta um dedo, como um aluno tímido que quer fazer um apontamento em sala de aula)

 ….

(tenta falar algo, mas Engels o interrompe)

Engels

– Karl, não tenha dedos para falar. “Meu livro”. Tenho plena consciência de que tive apenas insights para a obra. Se ele viesse a ficar pronto, o mundo o reconheceria como o verdadeiro autor. Particularmente, sou um homem de negócios; e não tenho vergonha de sê-lo, ok. Para falar a verdade, achava demasiado cansativas e pernósticas aquelas suas conversas com o Professor Hegel…Enfim, meu caro, esse não é meu mundo.

 

***

Entre atônito com o chamamento à realidade que recebera  e frustrado, com a possibilidade de ter que arrumar um emprego para sobreviver, Marx tem que tomar uma decisão que afetará, não apenas o seu futuro, mas o de toda a humanidade. A decisão número “1” implica em arrumar alguma fonte de financiamento para sua empreitada em Das Kapital. Já a decisão número “2” significa que o livro sacro do socialismo não foi escrito e, por conseguinte, todas as consequências geopolíticas daquele não se desenrolaram. O que não significa, em absoluto, que o mundo viveria numa calmaria eterna pelos anos que se seguiriam.

[1] “Merda” em alemão.

Escrito por

Paulo Antonio Papini

9 Artigos

Advogado e Professor. Um conservador inconformado com o rumo das coisas.
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9 comentários em “O Dia em que Karl Marx Saiu para Arrumar Emprego”

  1. Fui alborroada por muitos Karl Marx, caramba isso é o que se chama atualização de história. Demais! Correndo por uma Lei Rouanet!

    1. Muito obrigado, o tempo todo fico imaginando histórias em realidades alternativas. Bem, para quem acredita na Teoria dos Multiversos o que neste conto é ficcional, existiu em algum mundo paralelo.

  2. Creio que foi depois do suicídio de judas , que o diabo resolveu bancar com dinheiro próprio evitando crises de consciência em suas bases.

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